O TEMPO POSTO SOBRE A MORTE

Foto: Miguel A. Lopes

Está a cumprir-se um ano sobre a "tragédia de Pedrógão".
Há um ano, por esta altura, estava ainda incompleta a contabilidade dos mortos resultantes de um devastador incêndio naquela martirizada zona do país.
Depois, em outubro, nova tragédia se haveria de repetir, depois de o maior incêndio florestal da história portuguesa ter reduzido a cinzas e negro uma muito grande área entre a Lousã e Oliveira do Hospital (cerca de 70 km) e praticamente dizimado o magnífico "Pinhal de Leiria".
Na governação da altura que é a atual, a preocupação foi sempre em minimizar as responsabilidades e apenas a cabeça da então Ministra da Administração Interna rolou, depois de uma centena de mortos ter pesado finalmente na sua (quase sempre reles e seletiva) consciência.
As responsabilidades foram sendo cirurgicamente alijadas e distribuidas por muita gente, por muitos organismos, por muitos fatores que se conjugaram de forma quase maquiavélica.
A responsabilidade política, que existe, que tem rostos e nomes, na altura foi encostada a um canto e vergada à necessidade da conveniência, porque a política é um exercício que oscila entre a sujidade e o brilho.
Provavelmente, este ano o cenário não se repetirá mas, daqui, deste dia 17 de junho de 2018, consigo adivinhar que, quem no ano passado nunca se sentiu responsável pelo que aconteceu, não se coibirá, este ano, de aparecer no final  da famigerada "época de incêncios", com um sorriso largo e o peito inchado, vangloriando-se do seu feito de "ter evitado uma tragédia como a do ano passado" e, mais uma vez e à semelhança de outras ações da governança, "ter virado a página da morte causada pelos incêndios em Portugal".

© AL.2018

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