A LINHA DO OESTE COMO PROLONGAMENTO DO PAÍS


Vivi 10 anos no Oeste, na cidade das águas mornas. 
Fiquei filho 
(pouco mais do que adotivo) 
da terra e dois dos meus herdeiros nasceram lá.
Na imprensa lida recentemente, surge a notícia do fim das ligações diretas de comboio entre Caldas da Rainha e Coimbra e por conseguinte a todo o restante centro-norte e norte do país.
É mais do mesmo.
Ninguém,ou quase ninguém, se importa.
A empresa (CP), exangue devido a sucessivas décadas de prejuízos, corta, encolhe, arrefece. As cativações em curso fazem o resto, que é mau, obviamente.
Se a Linha do Oeste e outras inexistências fora da bicefelia Lisboa-Porto jogassem à bola, tivessem guardas pretorianos em todos os canais de tv a fazerem o servicinho de retaguarda, salpicando de saliva e raiva o espaço público televisivo, horas a fio, talvez mobilizasse uma revolta.
Apenas o futebol parece justificar e congregar para as efetivas "causas", sejam elas justas ou apenas delírios de coitados e coutadas.
Não acontecendo isso e a menos que os milagres ainda existam ou sejam possíveis, a Linha do Oeste e outras pelo país caminham para o encerramento definitivo para os passageiros.
Ninguém quer saber.
O país existe apenas à volta de Lisboa e Porto e quando muito umas praias no Algarve.
Basta ver as vergonhosas promoções turísticas que sobram de imagens destas duas cidades e como tudo nelas é belo e fantástico
(as melhores do mundo nisto, as melhores do mundo naquilo)
tudo devidamente caucionado pelo turismo massificado, mais ou menos acéfalo e que de um modo geral não é particularmente dado à clarividência nem à análise crítica do que vê e muito menos ao que lhe é escondido.
Pura e simplesmente se ignora o resto do país, aquele que, em cinzas, emerge como pode perante este alheamento de passerelle, perfume reles e batom oriental nas bocas beijoqueiras da moda assim tão posta sobre o tempo.
O resto do país é como se não existisse e, em bom rigor, dá a ideia que enquanto a política não colocar 6 milhões de pessoas à volta de Lisboa e 4 à volta do Porto, acabando de vez e em definitivo com o resto do país, ninguém descansa nos gabinetes, seja por má e deliberada ação ou por nenhuma ação.
Revela-nos como país.
Pelo menos na cabeça de todos os que não se revêem neste mainstream existencial imposto e se permitem ver o que é sistemática, geométrica e estrategicamente servido como realidade.
© AL.2018

Comentários

  1. O País não existe.
    Não existe como um todo, só somos Nação quando há bola-tv. É mau lembrar o passado, em que um país foi ancorado em linhas fluídas de transporte, ferroviário, com função social, acima de tudo, não havia o luxo do carro para cada bípede lá de casa, e o que era difícil dava estaleca, anticorpos. Hoje dizer que não tenho carro porque dele não preciso, e o não quero, é tão mau como dizer que me estou a defecar estercadamente para a industria futeboleira, e a bestialidade de gente que a compõe, de cima a baixo. Mais uma linha que vai, mais um serviço publico que se não presta.
    «Volta Gumersindo», não sei se estás perdoado mas se fores tomar conta das Finanças e já agora, da Economia, levas um só ordenado, mas rápidamente passamos a ter um superavit e já sobra dinheiro para pagar o que devemos, produzir o que precisamos, e com o resto podemos ir limando estas arestas dos imbecis que desde Abril tem depauperado o pouco ou muito que havia sido feito até ali...
    »Volta Gumersindo», não sei se estás perdoado, que isso a mim não me compete, mas volta a ver se consegues dar a volta a isto!
    Desde Abril que somos imaturos, por isso, não me admira que cheguemos a Maio neste estado.
    «Volta Gumersindo» e trás contigo a fiel régua dos cinco olhinhos a ver se a malta acorda, nem que seja à reguada! ...

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