UNS QUANTOS DILEMAS E O ESTADO DA ARTE

Miró

É quase desonesto da minha parte não escrever numa página que criei para escrever.
Não é bem "não escrever", mas é escrever muito pouco.
O problema de quem escreve ou, vá, de quem gosta de escrever, é que estamos constantemente a escrever na cabeça. As frases aparecem
e (in)felizmente desaparecem
nela a um ritmo alucinante que muitas vezes acaba por nos cansar. Roçam por vezes a loucura os constantes jogos que nos colocam contra e a favor dos estímulos que nos cercam, como hoje que dei por mim parado a olhar a expressão de uma mulher sentada na paragem do autocarro e me lembro que quase de imediato, uma ou duas frases se arrumaram certeiras na minha cabeça, mas...
...O problema, um dos problemas, reside precisamente aí, ou seja, escreve-se mentalmente, sem registo em papel ou outro e as coisas somem-se sem por vezes deixarem pontas soltas que se possam agarrar para depois retomar. É como uma corrente de água que levas as palavras em barquinhos de papel, ululando pelas ondas da corrente, até se perderem no mar ou até o próprio papel se desfazer por si. E o "escritor" está na beira do regato, a assistir, de mãos estendidas, incapaz de operar o milagre da salvação.
Para tentar não deixar morrer o apelo da escrita - é tão fácil largá-lo e deixá-lo à sua sorte - desde há dias que me estou a obrigar a escrever, no mínimo, uma frase por dia, numa pequena agenda de papel que alguém me ofereceu recentemente
sim, de papel 
uma frase qualquer, sobre nenhum tema, sobre todos os temas, um acesso, um rasgo, uma ponta que depois, no final de cada mês me obrigará a juntá-las todas com uma cola qualquer e criar um texto que faça sentido.
Isto tudo para me combater a mim mesmo, isto é, tudo em mim berra para que deixe de escrever. Não vale a pena, ninguém lê, ninguém quer saber - a começar por mim mesmo - e eu próprio dou por mim entregue à letargia preguiçosa da contemplação, da leitura compulsiva de livros, de costas para o mundo, fechado para quase tudo, parasitando, não criando.
É um pouco atordoante e confuso, como esta situação ainda há pouco acontecida, eu que há 4 ou 5 dias ando constipado, há pouco, na casa de banho e perante o desacerto das ideias, interroguei-me se deveria limpar o nariz e assoar o rabo!...
É este o "estado da arte".
©AL.2017  

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