UM HERÓI VIVO E UM HERÓI MORTO

Estranhos dias estes que passamos.
Mário Soares morto, ladainhado em severa exaustão como o político dos políticos, no quem tem de melhor  e - a ajuizar pelos estados do país - pelo que tem de pior.
Tenho uma embirração pessoal com endeusamentos mais ou menos decretados.
E é tanto mais estranho quanto mil almas se revoltam contra as divindades assim veneradas, batendo no peito em favor e fervor da laicidade das coisas e do Estado que nos pastoreia o tempo e as posses.
Soares, segundo eles, que estabelecem a composição do ar que se respira e se dá a pensar, é O herói.
Agora na tumba e antes fora dela, apenas um homem de um tempo onde tanto faltava, desde matéria a não matéria, aquela que rala a pior das pobrezas - A de espírito!
Somos um país semeado de esquinas, todas cheias de salvadores, heróis e vates vários, que foram (quase) todos incapazes de nos tornar um pouco diferentes.
Cristiano Ronaldo, vivo, ladainhado em severa exaustão como o futebolista dos futebolistas, no quem tem de melhor  e - a ajuizar pelos estados futeboleiros do país - pelo que tem de pior.
Tenho uma embirração pessoal com endeusamentos mais ou menos decretados.
Se o ilustre madeirense, atuante fora de portas, tem pouco a ver com as caras envergonhadas que se arrastam pelos lusitanos estádios, urrando indignações pelos homens do apito e duvidando das verdades da verdade desportiva (seja ela o que for...), os seus  membros já são pagos a peso de ouros, os seus saltos sobre a relva e os seus gritos redimem, pois, as insuficiências de um país pobrete, claro, mas alegrete, semeado de heróis que, desgraçadamente, se revelam incapazes de nos tirar da torta cepa de onde vamos bebericando uns avulsos e alegres vinhos, de taninos pouco suaves e de finais de boca demasiado prolongados na sua amargura.
©AL.2017

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