O PAPEL DO PAPEL

Há dias, em cima da consoada de Natal, vi durante os segundos que atravessam uma rua, exposto  ao vivo e a cores, um quadro algo inusitado e quase perturbador.
Já com a noite a descer pelas paredes, embrulhada nas sombras de que se veste, vi um homem dos seus cinquenta e poucos anos, vergado ao peso que transportava nas duas mãos, descendo os três ou 4 degraus que separam o centro comercial da rua e atravessando-a rumo ao seu destino.
Numa das mãos, um saco cheio de compras que, depois de lhe lançar o olhar, percebi estar cheio de víveres - arroz, carne, fruta, caixas de bolos, garafas de bebidas, etc. - e na outra mão, um outro saco, igualmente cheio de víveres 
e
um pack de vistoso e volumoso de umas duas dúzias de rolos de papel higiénico.
Esta espécie de metáfora visual grátis do que é, em bom rigor, a nossa vida e o nosso apreço pelo consumo que nos determina a sobrevivência - o mais e o menos "determinado" pelas datas - foi, como referi no início, um quadro natalício cheio de impressões. As já descritas e tão sinceramente nuas e as outras que durante os breves segundos em que o homem dos dois sacos e do pack de papel higiénico me revelou a sua cara, e que não consigo definir
ou talvez, adivinhando
um misto de cansaço, pressa de se instalar em casa e algures nas voltas do olhar, a apreensão que o retrato que representava pudesse suscitar nos olhares alheios, na tesoura social, no ar denso e tão concreto da quadra, no inclinado do seu tronco, vergado àquele peso de tantas coisas.
©AL.2016  

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