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Começas mal
     quer dizer, não começas mal
só começas mal porque o facto de nasceres pode supor que algo morreu, no decorrer das leis da vida quando uns dão lugar aos outros, quando uns terminam o seu caminho, se encostam, ligam em movimento descendente o queixo ao peito e decidem fechar os olhos passando a olhar apenas para dentro numa luz breve de distâncias.
O que é a "magistratura do tempo"?
Vê se percebes.
O tempo é implacável. Segue caminho. Às voltas nos relógios, em frente rumo a não se sabe onde nem quando, mergulhando-nos no mistério dessa incógnita eterna. Não pára.
      sem acordo ortográfico nos seus assaltos de estupidez. Pára tem de ter acento, não para, porque tem de não parar
e é com essa marcha tão suprema, tão acima de tudo que vives e que todos vivemos, uns a olhar mais para trás do que outros, outros a olhar mais para a frente do que outros outros, ou talvez os primeiros outros, não se sabe, ninguém sabe, talvez o tempo nos seus infinitos saberes.
Matas páginas com a mesma quase fúria fria com que as crias.
Precisas de romper. 
Mesmo que os calhaus continuem a ter olhos, a ser calhaus no seu estatuto e entendimento, segues em frente porque se esgota o modelo, a fórmula, a perseguição aos traços do tempo, às suas aparas desalinhadas num chão irregular em que os pés palpam sólida base e sustentado equilíbrio.
Depois olhas o relógio. 
Lá está ele, em sítios altos, a olhar-te de cima, arrogante, forçando-te o pescoço, anunciando-se em estilo, lustrando a sua magistratura sentada numa cadeira infinita, nua de tudo, de onde tudo vem e para onde tudo vai.
A Magistratura do Tempo é isso.
Já é quase meio século, já é muito olhar passado, já é muita história, já é muito silêncio.
O tempo preside-nos, majestático, impiedoso, certo.
Enquanto ele quiser.
Um prepotente!
©AL.2016

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