DOIS MÉDICOS



                Às vezes ficava com o ventre preso, não por cordéis, não por fios, não por grades ou redes, mas preso, o não ato, a não vontade de visitar o bacio
     penico
ou a sanita e portanto dores de barriga, cólicas, horas sentado, sob um céu imenso à espera do despenhamento das entranhas
- Faz força. Mesmo que doa não faz mal!
comigo a gemer cores entre o vermelho, o roxo e todas as cores ou nenhuma cor porque entre o branco e o lívido e nada no penico
     bacio
só despojos da força, pequenas limalhas de coisa nenhuma
- Deixa ver se fizeste alguma coisa…
e vai-se a ver nada e portanto, dali a dias, o médico.
Uns 15 quilómetros e Arganil, casas brancas no sopé de uma serra alta, que vista por mim chegava a passar o próprio limite do céu e por entre as ruas, uma particular rua estreita, com casas de um lado e outro e por cima de uma porta ou por baixo de uma janela, o letreiro do Médico e não sei se letras pretas em fundo branco ou letras brancas em fundo preto, mas o médico, de bata branca e aquela coisa que se põe nos ouvidos e uma outra, sempre fria, que se encosta na barriga para escutar as tripas, nas costas
- Inspira.
e o ar a entrar
- Expira.
e o ar a sair
- Não fales.
comigo calado, quase encolhido na cadeira, obediente, à espera de descer a camisola que o frio me fazia desconforto e finalmente a sentar-me na outra cadeira dos pacientes e ciente que dali sairia o remédio para me sentar no bacio
     penico
e soltar as trancas da prisão com um estrondo de trovão, comigo do roxo ao vermelho porque horas antes a mão materna havia introduzido pelo rabo a bomba que haveria de soltar os cadeados das entranhas e então os prisioneiros soltos, rebolando pelo caminho aberto até à glória do penico
     bacio
mas outras vezes o médico só escutava, mandava que pusesse a língua de fora que com uma pequena tábua acamava para me espreitar as entranhas da garganta, comigo a cogitar e antecipar o vómito a todo o instante
- Há ali uma inflamaçãozita!...
comigo ainda a tossir incómodos
- Língua de fora, vá! Diz Aaahhhhh!...
e eu debitando com a língua estendida a espremedela da pequena tábua, o possível
-Aaahhh!
e logo a seguir a tosse e partes da digestão a subirem de nível, como que a querer voltar a ver a luz do dia pela cavidade por onde haviam entrado, sendo que no segundo a seguir, como que antecipando a possível hecatombe, o médico me mandava sentar, ele na sua cadeira, rabiscava com ar sério umas letras desconhecidas e que jamais poderia perceber, numa folha branca com o seu nome a um canto
- Duas colheres de xarope. Uma de manhã e outra à noite
comigo já a antecipar o seu sabor, a gostar se de laranja a não gostar se não de laranja, sempre com vontade de acabar com as amarras que me prendiam o ventre e se não era em Arganil, era em S. Pedro de Alva, num outro médico que sempre me pareceu enorme, a começar pelas suas mãos, ele com o mesmo aparelho de colocar nos ouvidos e aquilo sempre frio a encostar-se-me à barriga, perscrutando-me as entranhas e repetia uma ladainha de cátedra
- Inspira!
e depois
- Expira!
e outras vezes arriscava pedir
- Tosse!
comigo a tossir, entre a boa vontade e o enfado e ele com ar grave
- Deita-te!
e as suas mãos, enormes, palpando-me as entranhas e os órgãos de dentro de mim a escaparem-se dos seus locais habituais ante a busca daquelas enormes mãos do médico, mãos enormes quase como sapos muito gordos
      sapudas
e sempre o mesmo ar sério na sua cara, poucos sorrisos e a ponta da caneta em riste sobre o papel, numa caligrafia novamente impossível de ler e talvez um outro xarope à esquina
- Uma colher ao almoço e outra ao deitar.
ou supositórios que as mãos maternas me haveriam de introduzir pelo pior dos locais, numa ação contra-natura, rabo acima, justamente por onde tudo costuma descer, de modo a acalmar as febres, as dores, a soltar os prisoneiros do ventre ou simplesmente para recolocar no devido sítio os órgãos que as
     sapudas
mãos do médico haviam desarrumado no seu afã de me palpar e perceber por dentro.

In "Memória de Pedra"
©António Luís - 2015

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