CRÓNICA A DEUS NAS ALTURAS


Provavelmente as contas até são fáceis de fazer, mas Tu sabes que me fui safando a Matemática sempre com o mesmo esforço com que aturas a estupidez humana e por muito que Te queixes de mim, que ando esquivo, arredio, em fuga, prometi-Te que viria aqui hoje ver-Te e vim, subindo a montanha, vendo como é de uma total rudeza e beleza, um paradoxo sem fim, daqueles que nenhuma equação explicaria por a+b,
- Tu sabes que só me fui safando a Matemática
que nenhuma mão e mente humanas seriam capazes de conceber, na sua senda construtora, por mais alto que conseguissem subir, mesmo que afirmem sem vergonha e travão que Te querem alcançar.
Como Vês, vim e nem sabes como fico feliz por Te ver aqui por cima, de onde geres o mundo e as coisas dele, sentado na tua cadeira branca sobre as nuvens que agora estão aos nossos pés e ao chegar aqui acima, firmei a certeza de que Estás em todo o lado, que basta olhar em redor e percebe-se isso e nas horas que passei a ver-Te, encontrei-Te por todo o lado para onde olhei, percebendo-Te por trás de cada pedra, de cada planta minúscula que se atreve a nascer à beira do mais temível precipício e posso jurar que a cada fotografia que fui tirando, eras tu que me indicavas o enquadramento, o perto ou o longe, o sol e a sombra, muito embora quando te pedi ajuda para acertar com as definições da máquina Te tenhas escusado, desculpando-Te que
- Nunca fui bom a Matemática!
e portanto eu na luta com as velocidades, as aberturas, o zoom das lentes e juro que ouvi o teu riso perante as minhas indecisões, que bem sabes que deciões são sempre tão dificeis de tomar, o teu riso ecoando entre os picos que me invadem o olhar, ensinando-me que antes de tirar uma fotografia, já estou a escrever frases sobre ela e portanto as fotografias são frases sem palavras, ou então palavras disfarçadas de imagens, mas que nem todos conseguem ler
- São só pedras, rochas e penedos, o que te dizem elas?
mas dizem, algumas delas aproveitam-se até do eco, do facto de estarem mais perto de Ti para gritarem
- Isso são tolices tuas! As pedras e os calhaus, como lhes chamas, não falam, quanto mais gritar!
como se lhes tivesses encomendado sermão e missa cantada, nas alturas por onde estás sempre, olhando as coisas de cima, vendo os seus movimentos, arrumando-nos em prateleiras, nós que sempre tão sem destino, sem atino, seguros da nossa tremenda insegurança, que tudo é limitado, que tudo é precário, que tudo está para lá do dinheiro, dos objetos, dos prazeres, lá onde queremos sempre ir ou estar e nunca vamos ou estamos e por isso Te procuramos, quando a aflição aperta ou quando percebemos que ali por baixo as nuvens se reúnem todas junto de Ti quando a noite se desembrulha a leste e que depois devolves generoso aos céus, pela manhã, deixando-as livres de se espalharem conforme desejam em correntes de graça, empurradas pelo vento agora quieto, ali entre dois ou três cumes, fazendo contas certeiras
- O vento sempre foi bom a Matemática!
enquanto eu e Tu não, e como se de mão dada, os dois interpretando o voo incerto das aves que buscam a cama onde ultrapassam a noite sem um lamento e apenas pacientes da certeza do dia seguinte, explicando-nos de que é feito o silêncio que nos cobre e à montanha, como se fosse uma manta que nos afaga do fresco da noite.

In "Memória de Pedra"
©António Luís - 2015

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