VAGA REFLEXÃO SOBRE O FOGO, O ABANDONO E A MORTE

Na foto, percebe-se bem a mancha florestal, imensa, que circunda a minha aldeia - Telhado, no concelho de Penacova. 
É constituída, em esmagadora maioria, pelo Eucalipto e avança, paulatina, para junto das casas, à custa do abandono das terras e quintais.
Na foto, do seu lado esquerdo, percebe-se também essa pérola do desenvolvimento dos concelhos do interior, ou seja, zonas industriais encostadas aos eucaliptos, devidamente patrocinadas pelos poderes políticos que as inauguram entre croquetes e discursos. Isso do ordenamento é coisa que só faz gastar dinheiro...
--
No dia de hoje, ainda com demasiado cheiro a morte às mãos do fogo e no meio de tanta coisa que se diz e tanta outra que não era necessário dizer, acrescento
        com conhecimento direto de causa
algo de que não se fala muito, seja lá por que razão for.
O oportunismo político, a necessidade de precaver o carreirismo pessoal, o serviço nos partidos e essa chaga que dá pelo nome de "politicamente correto" fazem o resto, um trabalhinho de formiga, "invisível aos olhos, essencial para os egos", isto se Saint Exupery me permitir a adaptação talvez abusiva, sem rebolar no seu planeta infinito, encostado às estrelas.
A aldeia onde cresci tem cerca de 300 habitantes. Situa-se no concelho de Penacova, a escassos 18 km de Coimbra e está prostrada, como muitas outras de diferentes dimensões, numa imensa mancha de eucaliptos.
Em tempos, uma boa parte dessas três centenas de almas que a habitavam mantinha as suas terras e quintais amanhados e que abriam, naturalmente, um perímetro higiénico e de segurança relativamente à floresta circundante. Aliás, não tenho memória de ver um grande incêndio perto da aldeia...

Um quintal abandonado, dentro da aldeia, pronto a levar o fogo junto das casas...

Hoje, com os mesmos 300 habitantes, a população que se dedica às terras e aos quintais é residual e, por isso, a floresta avança despudorada para junto das casas.
Quando falo em floresta, ofendo-a, porque o Eucalipto é uma praga que, na minha zona, anda de braço dado com outra praga, a Acácia.
Juntos prefiguram uma bomba atómica pronta a rebentar e a entrar pelas casas dentro, devidamente patrocinadas pelo abandono das terras e dos quintais às mãos da tão mais fácil ida ao supermercado, devida e estrategicamente colocados onde interessa, com o patrocínio dos autarcas, a coberto do desenvolvimento que lhes enche a boca nos discursos onde incham tanto.
Enquanto as tragédias se quedarem nos concelhos vizinhos, resta para consolo da consciência, fomentar e patrocinar a solidariedade que fica tão bem em tudo e em todos, encher as "redes sociais" de revolta, indignação e coitadismo, de abraços aos bombeiros, de sombrear o Presidente e o Primeiro-Ministro, todos com a cara fechada, todos também responsáveis pelo que se está a passar neste país crescentemente urbanizado e com o seu interior entregue à brutalidade do abandono, à implacabilidade dos elementos e à inevitabilidade da morte.
As mãos no peito ficam bem nas fotografias mas são mais úteis quando trabalham efetivamente em favor das mudanças que é necessário fazer e não apenas anunciar quando a morte dobra as esquinas do nosso conforto.
AL.2017 

Comentários

  1. É um facto sem dúvida. A minha aldeia natal está rodeada de pinheiros, já com alguns eucaliptos pelo meio, mas a pólvora está lá na mesma: pinhais, altamente combustíveis, cheios de mato!É no Sopé do Caramulo e, porque nos momentos certos os ventos têm mudado de direção, teve sorte em não ser destruída a sua mancha florestal nos incêndios que têm existido no Caramulo. Mas sabe que me interrogo de como travar isto? Carvalho? Quem o vai plantar: caro, sem possibilidade de retorno financeiro naquela geração; População envelhecidada e diminuta, etc.
    Este é o grande problema de Portugal do sec XXI: a floresta...

    ResponderEliminar
  2. Obrigado pelo seu comentário, Carlos!
    Esse é o desafio maior, bem maior que muitos desafios da economia - défices e adjacentes - que são conjunturais e efémeros.
    O país que se quer isso sim, deveria fazer pensar mais e muito, mas muito melhor! E este, urbanizado, eucaliptizado e segregador do seu interior, não me orgulha. Nada.
    AL

    ResponderEliminar

Enviar um comentário