LEITURA - "Guardas de passagem de nível", de Carlos Cipriano

Mais uma vez, interrompi a leitura do livro que desde início de março me ocupa o  tempo livre - "A Mancha humana" de Philip Roth - para, de uma penada (umas 2 a 3 horas) ler as 117 páginas do livro "Guardas de passagem de nível" de Carlos Cipriano.
Conheço o autor há mais de 20 anos, desde a altura em que me "instalei", por uma década, em Caldas da Rainha. 
Já foi meu "subdiretor" quando, durante algum tempo, colaborei no jornal que ele então e ainda hoje subdirige e coordena, a Gazeta das Caldas, bem como assina quase tudo o que no jornal Público tem  a ver com os comboios e a ferrovia - notícias e reportagens.
Sei da sua paixão pelos comboios - o pai foi ferroviário, o irmão foi maquinista e presentemente continua ligado aos comboios - e, por isso, o cheiro a creolina, a mística neblina das estações, dos comboios que chegam e partem, as janelas a correr frente aos nossos olhos, os apitos e de todo o universo que os faz circular, está-lhe no fluxo sanguíneo, insuflando-lhe até o ar que respira.
Gostei de ler o livro porque foi escrito por um amigo meu - não tenho muitos amigos que escrevam... - mas sobretudo porque é um tema que desde sempre me interessa. A ferrovia, a seguir à aviação, sempre me fascinou. E depois porque eu próprio tenho experiências visuais com as personagens deste livro.
Atravessei dezenas ou até centenas de vezes
talvez até milhares
diversas passagens de nível, sobretudo uma, nos Fornos/Vilela, escassos 6 ou 7 km a norte de Coimbra, uma vez que por ali passava e passa a estrada que liga Coimbra à minha aldeia, cruzando a movimentada linha do Norte.
Lembro-me das diversas etapas dessa passagem de nível. Primeiro tinha duas pesadas grades de correr, que eram arrastadas à força de braços, fizesse chuva ou sol. Depois passou a duas cancelas que eram ativadas à força de uma manivela e, finalmente, foi automatizada - como ainda hoje permanece, já sem a respetiva guarda.
Lembro-me pois, perfeitamente, de ainda ver a mulher a empurrar a cancela e depois rodando a manivela, enquanto eu, dentro do carro do meu pai ansiava a passagem do comboio e o meu pai se impacientava nas esperas mais prolongadas e que associava à incompetência de alguém, desconhecendo que, tal como na sua profissão, a "desgraçada" da guarda tinha que cumprir na íntegra os regulamentos...
Aliás, sempre que me aproximava de qualquer passagem de nível, esperava sempre que ela estivesse fechada para poder ver os comboios a passar.
Mas o livro, para além da algumas imagens que (também) me são familiares, encerra em si algo de mais importante e que eu desconhecia e que é a extrema dureza da atividade, não só pela dimensão dos turnos e horário de trabalho (12 ou 24 horas...), como pelas condições infra em que algumas das mulheres ali retratadas (sobre)viviam, junto às linhas, em alguns locais indescritíveis, no  meio de nada e de coisa nenhuma, expostas quase como "nuas" aos elementos.
Não me custa lembrar de as ver, de bandeira em punho, junto à linha e ao lado das "casetas" - assim caracterizadas pelo autor, quase sempre com condições abaixo do limiar da dignidade.
Contudo, o mais notável nestas mulheres e em contraponto à rudeza quase absoluta das suas condições de trabalho, é o orgulho digno na sua profissão, cuja responsabilidade é imensa e que, ao passageiro confortavelmente sentado no comboio, é praticamente transparente.
Quando muitas profissões pugnam - nem sempre com sólidas razões - por melhores condições de trabalho, convinha que soubessem de como as "condições de trabalho" são uma entidade demasiado relativa e que este livro tão bem descreve, no que respeita a estas corajosas mulheres que guardam as passagens de nível.
O estilo jornalístico da escrita deste livro, próprio do autor que é, justamente, jornalista, não esconde de nenhuma forma a carga emocional que o próprio autor colou na "confeção" desta obra e, provavelmente, é por ser um estilo direto, conciso e claro que o torna, a espaços, tão amargamente doce e carregado de emoções.
©AL.2017  

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