FOGO SOBRE CADÁVERES


As notícias dão hoje conta do lançamento de um míssil balístico por parte da Coreia do Norte.
Por uma qualquer razão que não alcança racional explicação, a (ir)realidade que se (sobre)vive naquele país desde sempre me interessou. Já li alguns livros sobre a Coreia do Norte, reportagens, testemunhos, etc., e, por isso sou minimamente conhecedor 
do que é permitido e/ou possível saber sobre aquela nação tão hermética
para olhar para esta ação como uma despudorada manifestação de desprezo pelo desgraçado povo norte-coreano, faminto de quase tudo, muito embora do lado de cá se questione se essa "fome" é extensível à noção de si próprio, à noçãoo do que se passa ou não no país, à noção do que se é como sociedade, uma vez que o regime tudo controla, ao milímetro, ao segundo, desde o respirar até ao xi-xi e o có-có do cidadão e ao modo como são vertidos para o exterior.
Se a tenebrosa contrapropaganda exterior, aquela que segundo Pyongyang existe num plano de conjetura contra-revolucionária globalmente congeminada e por defeito, estiver certa, na Coreia do Norte tudo falta, seja do ponto de vista material - alimentos, bens, haveres... - seja do ponto de vista não material, leia-se, liberdade
é suposto rir-mo-nos aqui...
informação, auto-noção do país e por arrasto do mundo envolvente, estes ensaios são apenas aberrantes e criminosos, ainda que reveladores dos seus promotores.
Criminosos não do ponto de vista geoestratégico, porque outros países com outras atitudes e responsabilidades o fazem, a coberto de outro argumentário quase sempre polido e até caucionado por quem tem de o fazer, digamos, mas evidentemente criminoso porque por cada aplauso do regime ou sorriso imberbe do igualmente imberbe Kim Jong Un, morrem mais uns quantos norte-coreanos de fome, não sem antes verem as possibilidades de sobreviver devidamente queimadas no rasto ígneo do "glorioso míssil balístico", orientado aos inimigos próximos, quase todos imaginados nos tabuleiros dos militares de Pyongyang, sob o alto patrocínio do regime, o mesmo que tudo controla, que tudo salva e que a todos mata, qual Deus bom e mau, total, sempre devagarinho, sob um fogo de artifício que (ir)realmente levanta aplausos aos mil e um cadáveres que ilumina.
AL

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