A MINHA REFORMA AGRÁRIA


Mantenho uma forte recordação de alguns 25 de abril da minha vida, que a dada altura se repetiam quase todos os anos e que têm como elo de ligação ou traço comum, o facto de essas datas terem sido muitas vezes celebradas a trabalhar de forma árdua na terra. 
Os feriados como este ou o 1º de maio, eram aproveitados para trabalhar nas terras uma vez que os habituais urbanos empregos/ocupações  impediam que por vezes durante a semana isso acontecesse.
Lembro-me de, entre os 17/18 anos e os 30 e tal, ter passado alguns (quase todos) feriados do 25 de abril na aldeia - Telhado/Penacova - ido de Coimbra, agarrado a um pequeno trator/motocultivador, fresando as vinhas, a muita força de músculos e braços para segurar aquela pequena grande fera agrícola que, literalmente, saltava nos meus braços a cada golpe de dureza da terra ou; em outros anos, sulfatando as videiras com um pulverizador manual que funcionava igualmente a força de braços, ou sachando terras de batatas, ainda a força de braços e portanto, a dada altura, cada batata no prato ou copo de vinho na mesa, criado nas duas vinhas que tratava, tinha muitos, mas mesmos muitos pingos de suor, caídos do meu rosto, sob sol por vezes bem quente
        a 25 de abril, tinha sempre a sensação de que estava calor - e por vezes estava!
e conhecia bem o significado  do trabalho do campo, a sua dureza e rudeza e apesar de fazer muita vida urbana, aquelas incursões na terra funcionavam como o encontro com as minhas raízes.
E apesar do brutal cansaço que por vezes provocavam, foram sempre muito importantes para a sanidade mental e física do corpo, tudo situações que, vistas agora esta distância, proporcionaram uma outra capacidade para compreender certas coisas que, tantas vezes, são analisadas de forma espúria por algumas pessoas que não entendem os intervalos do tempo, nem o que neles está inscrito.
Felizmente, alguns percalços e experiências da minha vida, por mais duros que tenham sido, servem hoje para manter um distanciamento que penso ser lúcido relativamente a algumas coisas que o afã da velocidade e respetivas sensações requisitam e por isso, "aflige-me" ver, ouvir e ler muito disparate escrito sobre tanta coisa, por vezes olhares deitados de forma sobranceira sobre os acontecimentos e os meandros da história, sem um módico de humildade ou conhecimento in situ de causa.
Curiosamente, raramente me socorro de algumas experiências de vida por que passei para, por elas e com elas, destilar sobrancerias ou manias sobre os meus semelhantes. E algumas delas, devido à altura e modo com que foram vividas, poderiam ser uma mais-valia para o entendimento e partilha desse entendimento, contribuintes para uma melhor compreensão de certas "coisas" que se passam ao meu/nosso redor. 
A minha "revolução" continua a ser muito silenciosa, reflexiva e, por isso, muitas vezes livre de uma certa conspurcação que é inerente ao imediatismo tão nivelador que a vida atual tanto banaliza e estima, a soldo de superficialidades várias.
Voltando atrás, a dureza daquele trabalho de músculos, era quase sempre isolada, funcionando eu isolado no meio das terras e do seu trabalho, dando estrada ao pensamento próprio, ao peso das situações, à ponderação, até a uma certa calma e frieza que, ainda hoje, me identificam e ajudam a sobreviver mais dignamente nesta confusão de valores.
Concluindo, o 25 de abril, para mim, é algo (muito) mais do que uma "simples" data brandida a soldo político, largada sem azimute de tantas bocas que deveriam - com tanta urgência - remeter-se, elas sim ou também, ao silêncio.

Nota: Este texto está escrito desde 2015. Nunca foi publicado. Até hoje.
©AL.2015

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