UM ANO PERDIDO E UM ABORTO EM PREVISÃO



Durante cinco anos estive gravido de um livro.
O trabalho de parto foi longo, não isento de dores e começou algures em 2014 quando determinei que a criatura haveria de ver a luz do dia e não se ficar por um aborto a engrossar a lista dos ditos, agora que a opção foi legitimada superiormente.
Faz hoje um ano que a parteira - a editora - me fez chegar o ente às mãos, depois de erráticas passeatas no corredor das incertezas, numa espera de unhas e das informações recheadas de uma espécie de prisão de ventre, próprias de quem não tem provavelmente certezas do que está a fazer nem porquê, errando na prateleira da alimentação.
Passado um ano, a criatura já largou o biberão, o berço e só não caminha porque se arrasta desmembrada por um chão qualquer, sem que alguém que não apenas o seu progenitor se encarreguem de lhe estender mão amiga. A realidade é, portanto, bem lixada*...
É, muito certamente, a natural ordem das coisas e da sua existência, sobretudo quando o mérito ou a falta dele são uma espécie de labirinto onde tudo se perde ou não encontra por manifesta ausência de bóias ou largadas de pista, ou outros mecanismos de socorro.
Se estou arrependido de o ter feito ver a luz? Não estou.
Se pretendo insistir na aventura, arranjando-lhe um irmão para solidário convívio e corajoso combate à solidão? Talvez possa vir a insistir, quem sabe, mas só por evidente masoquismo.
Entretanto, o que necessitava de arranjar mesmo era uma "madrinha" jeitosa, histérica, ululante, que o pudesse vir a vender aos paisanos como quem vende conversa fiada ou bugigangas para disfarce de quase tudo menos da falta de vergonha.
Para quem me lê, pode parecer queixume, miserabilismo, palermice, fixação patológica. Pode ate ser mas, o objetivo de quem escreve - um dos objetivos - é que a sua mensagem seja recebida pelo maior numero possível de recetores/leitores. O ato da escrita, para lá da libertação das palavras e frases aprisionadas, é um exercício de partilha que passa muito pela também libertação pessoal das amarras do escritor, dos turbilhões emocionais que o varrem a toda a hora, porque as coisas andam dentro de nós, aos pulos e encontrões para saírem... 
E sofre-se com isso, por mais patético que possa parecer aos "limpos" que de fora até gozam com o nosso "desespero".
O trabalho da editora foi/tem sido perfeitamente nulo. Num ano conseguiu vender uns miseráveis Vinte livros. Vinte! 
Estou felicíssimo, como é óbvio! 
Não é tanto pelo dinheiro - porque o que ganho por cada livro vendido pouco mais dá do que para um café - sim, pouco mais do que o preço de um café!!!... - mas porque a mensagem não chega a quase ninguém.
Não almejo ficar rico a escrever - um sonho tão patético como pueril - mas porra, escrever para pouco mais do que ninguém?!... Ver uns quantos vates a descascar o selfpessegueiro com "obras" que encomendaram a alguém, ocupando os espaços públicos em sucessivas voltas atrás das farfalhudas caudas remete-nos - remete-me - para a nulidade insustentável dos zeros à esquerda.
Em suma, e dada a implacável cavalgada da idade, não me estou a ver a escrever mais um livro 
que anda dentro de mim, do qual estou grávido 
e sobre o qual impende, como uma inevitabilidade, a sempre polémica alternativa que só um aborto bem feito e autopatrocinado resolve.

*Sinónimo de "Lixada" = F0d&d@
©AL.2017

Comentários